Hoje é o Dia Nacional do Escritor. E, curiosamente, também é o Dia Fora do Tempo (clique aqui para saber mais). Talvez não exista coincidência melhor: um celebra quem transforma palavras em mundos; o outro nos convida a sair da lógica apressada do calendário.
E é justamente nesse encontro entre escrita e pausa que mora um velho conhecido de quem escreve: o bloqueio criativo.
Escrever é como uma coceira. Uma comichão que pede atenção no exato momento em que aparece.
O texto tem vida própria — buliçoso, inquieto. Às vezes murmura, às vezes urra. Chama. E, se não o ouvimos, foge. Escapa como areia entre os dedos. Move-se dentro de nós mas só pode encontrar uma fresta por onde se transformar em palavras com a nossa permissão.
E por que será que existem tantos escritores sofrendo com o chamado bloqueio criativo? No meu modo de ver, há um gatilho quase infalível para que ele surja: o famigerado “tenho que”.
Quando o “eu deveria” entra em cena, é como se portas e janelas da criatividade se fechassem diante dos nossos olhos. Nada acontece. A mente parece se afundar em areia movediça infinita.
Nessas horas, paradoxalmente, o melhor a fazer é relaxar. Soltar. Deixar ir a necessidade de escrever a qualquer custo.
— Ah, muito fácil para você dizer isso, você não tem prazos a cumprir.
É verdade. Talvez eu pensasse diferente se houvesse prazos impostos de fora. Ainda assim, mesmo quando defino os meus, faço isso com certa flexibilidade, permitindo ajustes quando sinto que é necessário.
E então eu pergunto: quando escrever não era uma obrigação, você conseguia fazê-lo com liberdade?
Se a resposta for não, então o buraco é mais embaixo. É possível que você esteja se enganando. Se não existe essa vontade genuína de escrever, talvez valha se perguntar se a escrita é, neste momento, o seu canal mais natural de expressão. E está tudo bem se não for. Há muitas formas legítimas de dar voz ao que somos.
Mas, se a resposta for “sim — eu escrevia com facilidade” — então é possível que o bloqueio venha apenas da obrigação. Uma ilusão que pode ser driblada. Afinal, você escolheu esse caminho.
Você não “tem que” nada. Você escreve porque isso faz sentido para a sua alma. Transformar prazer em dever é uma forma silenciosa de esvaziar o sentido. Quando a obrigação cai, as ideias tendem a encontrar espaço para fluir.
Há ainda outro fator decisivo para o bloqueio criativo: a opinião dos outros.
"Será que vão gostar?
Será que eu deveria dizer isso de outra forma?
E se me acharem arrogante?
Será que vão entender exatamente o que quero dizer?
Talvez não esteja bom o suficiente... Melhor não publicar."
Enquanto a opinião alheia pesar mais do que os sentimentos que embalam nossa escrita, estaremos sempre paralisados.
Isso não significa ausência de disciplina. Ao contrário. A disciplina é uma escolha consciente que nos fortalece. Por mais contraditório que pareça, ela nos traz liberdade. Já o “tem que” é uma prisão disfarçada de dever — um sufoco para a alma.
É a disciplina que nos permite desenvolver as habilidades necessárias para escrever com o coração, sem perder o compasso. Ela nos guia. Mas o verdadeiro prazo, o mais importante, é o da nossa alma.
Neste dia tão especial para nós escritores e aspirantes a escritores, desejo profundamente que a nossa pena seja guiada pela sabedoria da nossa essência.
Que nossos sentimentos encontrem na escrita a forma de expressão e de entendimento que outras formas não conseguem espelhar.
Que o labirinto das nossas emoções alcancem saída nas palavras rabiscadas.
Que possamos descobrir o ponto exato onde o tempo do mundo e o tempo da nossa alma se encontram.
É isso o que desejo a todos nós que escrevemos.
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Com ou sem apoio, sigo escrevendo. Afinal, o que seria da escrita sem a teimosia criativa? 😉
Atenção!
O Desvendando a vida foi criado para estimular o pensamento crítico. Todos os textos aqui escritos estão baseados em experiências, estudos e observações pessoais. Poderá haver embasamento científico, filosófico, religioso ou acadêmico em alguns textos, mas não será a regra. Na maior parte do tempo serão apenas opiniões e perspectivas de uma pessoa comum utilizando seus sensos de realidade. Não tenho a pretensão de impor verdades. Quero apenas refletir e lançar sementes para análises e considerações.


