Este não é exatamente um texto.
É um desabafo.
Fiquei pensando se deveria ou não publicá-lo. Afinal, nem sempre é uma opção muito inteligente mostrar demais nossas vulnerabilidades. Talvez eu publique. Talvez não. Mas, hoje, ele existe porque eu preciso colocar para fora o que tem pesado por dentro.
Estou há 25 dias acompanhando minha mãe no hospital. Não de forma totalmente ininterrupta — a esposa de um colega fez um gesto imenso de amor e me substituiu em alguns dias, para que eu pudesse respirar um pouco fora desse clima constante de hospital.
Ela veio para uma consulta por causa de uma escara que estava piorando. Precisava fazer exames. Acabou internada com quadro de desnutrição grave.
E, desde então, os dias têm sido intensos.
Uma semana antes da internação, eu já enfrentava fortes crises de ansiedade. Estava exausta por cuidar dela sozinha há tanto tempo, quase sem apoio. Com a internação, as crises se intensificaram.
Já não sei o que é ter um sono ininterrupto há mais de vinte dias. Emagreci cinco quilos na primeira semana.
Felizmente, recuperei o apetite — e, com ele, um pouco do prazer de comer.
Precisei deixar o orgulho de lado e pedir ajuda nas redes sociais — inclusive financeira. Estou sem renda e correndo o risco de perder o emprego.
Foi quando esse colega e sua esposa me surpreenderam com um apoio que não tem medida. Outras ajudas também vieram: palavras amigas, contribuições financeiras, gestos de presença. E, infelizmente, houve também promessas que não se cumpriram.
O tempo passa. A maioria das ajudas começa a cessar.
O INSS não considerou minhas crises de ansiedade graves o suficiente para me afastar do trabalho. E o fato de eu não poder trabalhar porque preciso cuidar da minha mãe não é da sua alçada. Não é relevante que, há seis anos, eu não tenha vida própria para poder cuidar dela. Isso não parece ser suficiente para que qualquer ser humano possa surtar.
Confesso que, em muitos momentos, desejei que ela partisse. Depois, a culpa vinha.
Mas esse desejo não nasce apenas de um impulso egoísta de “me livrar do problema”. Também me ocorre que talvez ela pudesse se renovar, se partisse. Talvez pudesse recomeçar em outro plano. Voltar a andar livremente. Recuperar autonomia.
Hoje, ela vive na cama, se alimenta por sonda, usa fralda para as necessidades. É como se estivesse fazendo o movimento inverso da vida — voltando a ser bebê.
Enquanto isso, ela sobrevive presa a uma cama, sem perspectiva de sair. E eu vivo uma espécie de prisão domiciliar. Uma prisão com certo conforto, mas, ainda assim, uma prisão.
Preciso confessar que, em alguns momentos, senti até um pouco de inveja.
Aqui, no hospital, ela tem todos os cuidados necessários — medicação, alimentação, hidratação, fisioterapia, fonoaudióloga, nutricionista, troca de fraldas, banho diário. Uma equipe inteira voltada ao seu bem-estar.
Eu, às vezes, sequer consigo tomar banho, porque preciso ficar de olho nela. Não posso sair para resolver as providências necessárias para quando ela tiver alta, a menos que alguém fique no meu lugar. Mas as pessoas também têm suas vidas. Nem sempre podem vir quando eu preciso.
Me cobram cuidados.
Me cobram atenção.
Me cobram manter o bem-estar e a saúde dela.
Poucos percebem que pareço um boneco inflável, prestes a murchar.
Como cuidar bem dela, se não consigo cuidar minimamente de mim? Tenho medo de adoecer e não conseguir cuidar dela. Tenho medo de morrer e não conseguir cuidar dela.
Aos cuidadores, tudo é pedido. O mínimo é negado.
Alterno momentos de amor, culpa, raiva, impotência, zelo, exaustão — e um desejo intenso de que esse ciclo se encerre de alguma forma.
Mas nem tudo foram espinhos. Houve momentos em que ela esteve especialmente lúcida. Momentos de conversa verdadeira. Momentos de pés na terra. Momentos de puro amor — mais nos gestos e no olhar do que nas palavras. Houve compreensão. Aceitação. Reflexão.
Houve pausas dinâmicas no meio do caos.
Seguimos.
Ela com seus desafios.
Eu com os meus.
Às vezes, tenho a impressão de que estamos atravessando o mesmo deserto, cada uma à sua maneira. Ela, presa ao próprio corpo. Eu, presa ao papel que me coube.
Há dias em que amo com uma força que me surpreende. Há dias em que só existo por obrigação. Não sei quanto tempo ainda dura.
Não sei quem de nós duas atravessa primeiro.
Por enquanto, continuo aqui. Entre a cama dela e o limite do meu corpo.



Debora querida, que relato... Eu jamais ousaria dizer que entendo o que você sente, embora você tenha sido tão clara – como sempre – que consegui sentir um pouco na pele e associar a uma situação que estou vivendo hoje com meu pai. Enfim, dentro do possível, te entendo.
Confesso que eu realmente gostaria de viver num mundo em que a morte pudesse ser tratada apenas como um descanso merecido e opcional de quem não quer definhar esperando a próxima internação. Mas isso é reflexão para outro momento.
Por ora, te ofereço minha escuta à hora que você precisar. Mesmo. Me mande mensagem quando e se quiser conversar, que será um prazer te ser companhia.
Imagino o quanto esteja sendo difícil pra você tudo isso. Tô daqui desejando luz no teu caminho e muita força, quem sabe assim pelo menos possa se sentir um pouquinho acolhida. <3